Motivos para não odiar - desaBAHfo

Motivos para não odiar – desaBAHfo

O que eu vou escrever aqui é pra mostrar como a perspectiva pode mudar tudo, até a sua vida.

Eu sou muito sortuda. Sortuda em coisas que eu acho ótimas e em coisas que não pedi para ser. Em algumas situações posso até não parecer sortuda, mas sou. Simplesmente porque, aprendi a enxergar assim… 

Eu sou “sortuda” porque, apesar de nas minhas veias correrem sangue indígena e africano eu tenho pele e traços de caucasiano então, eu sou branca e recebo todos os dias, desde que nasci, os privilégios do meu tom de pele.

Eu sou “sortuda” porque, dentro de um país em desenvolvimento, onde muita gente vive na miséria, eu nasci numa família de classe média e recebi todos os privilégios de quem mora num “bairro bom” e estuda em escola particular.

Mesmo assim, a vida não foi fácil e é por isso, que eu não gosto quando apontam o dedo para competir quem está pior. Tenho consciência absoluta que apesar do que eu vou contar, tem gente com experiências de vida ainda mais traumáticas que a minha.

De onde veio o meu ódio

Quando eu tinha 9 anos de idade meu pai foi assassinado numa briga de trânsito.

Minha mãe queria me protejer daquela violência toda e por isso, inventou uma história em que meu pai teve um ataque cardíaco, mas não durou muito tempo para eu descobrir que era mentira. 

No velório eu ví câmeras por todos os lados. Lembro que uma hora eu estava agarrada na perna do meu tio (que era o advogado no caso do meu pai) porque, eu vi uma jornalista falando com ele e queria entender que raios eles estavam filmando num velório de uma pessoa que teve um ataque cardíaco. Meu tio olhou pra mim e tapou os meus ouvidos enquanto falava.

Minha mãe me disse que eu não precisava ver meu pai no caixão se eu não quisesse, mas eu quis e foi um choque. 

Quando colocaram o caixão no carrinho e começaram a levar no caminho para a cova, eu desabei em choro porque, percebi naquele momento que não tinha volta, eu nunca mais ia ver meu pai.

Enquanto eu tentava olhar para o caixão em movimento, um homem com uma câmera se posicionou na frente da minha visão para pegar a melhor imagem daquela criança de 9 anos em prantos. Eu lembro que eu achei aquilo tão, mas tão errado.

Quem olhava por fora só via uma criança chorando pela morte do pai, mas se alguém pudesse olhar por dentro ia ver uma menina cheia de perguntas: porque me gravar assim? porque a história do ataque cardíaco do meu pai é tão importante? porque os adultos ficam cochichando com jornal na mão?

Meu pai já estava enterrado quando eu dei um ultimato na minha mãe. “Meu pai não morreu do coração! Eu quero saber a verdade”.

Eu nunca perguntei o que ela pensou nessa hora, mas eu acho que ela sabia que do jeito que eu estava determinada a descobrir, alguma hora eu ia chegar na resposta e talvez fosse do pior jeito possível. 

Então, nos meus 9 aninhos eu descobri que o ódio cega as pessoas ao ponto de cometerem crueldades terríveis. 

E olha que bizarro, meu pai foi vítima da cegueira do seu próprio ódio e do ódio alheio e, qual foi o primeiro sentimento que eu tive quando soube a verdade? 

Sim, ódio. 

E eu tinha muitos motivos para levar esse ódio para frente. Cada vez que eu descobria mais um detalhe do caso do meu pai, eu tinha mais motivos ainda para deixar esse ódio todo me consumir.

Eu nem vou escrever as coisas terríveis que eu ouvi, mas sim o ensinamento que minha mãe me deu pela TV e depois repetiu em casa. 

O ensinamento

Minha mãe foi chamada para um programa sensacionalista para ser confrontada sobre a morte do meu pai já que era testemunha do ocorrido. Enquanto isso, na cadeira do lado estava a mãe de um dos jovens que o matou. 

Eu em casa sozinha, gravei o programa numa fita de vídeo. 

E apesar da instrução para não assistir o programa é claro que eu assisti. 

Ví minha mãe tentando explicar várias vezes que ela não queria vingança, ela queria apenas justiça. E como de se esperar, pessoas tentavam deturpar as palavras dela. Chegou um momento que eu não conseguia mais assistir aquilo, que dor!

Quando minha mãe chegou em casa ela tentou me explicar que o que aqueles três jovens fizeram era terrível, inaceitável e eles tinham que ser presos porque, essa era a consequência do ato que cometeram. Porém, matá-los? torturá-los? NUNCA! 

Ela me disse e repetiu para outras pessoas: eles são jovens, nunca cometeram nenhum crime na vida, fizeram um ato horrendo e vão pro resto da vida ter uma ficha suja que vai mudar completamente o rumo da vida deles. Mata-los não vai trazer seu pai de volta. Incentivar que sejam torturados muito menos e a sua dor não vai sarar com mais violência.

Foi  assim que eu aprendi já criança a controlar o meu próprio ódio e que a vida de qualquer pessoa importa sim! Foi assim que eu aprendi a ver o outro lado da história não para passar a mão, nem para tentar tirar a responsabilidade, mas para distinguir a diferença de justiça e ódio.

Acabei de me lembrar de mais um exemplo que eu ouvi repetidamente em casa. Toda vez que eu falava “eu odeio jiló”, “eu odeio fulano”, etc. Minha mãe me dizia, não use a palavra odeio, use não gosto. Ódio é um sentimento muito forte.

Passando por tudo isso quer dizer que eu sou uma altruísta? Uma pessoa perfeita que nunca odeia? Uma santa? Claro que não! 

Eu acredito que me tornei mais empática ao longo dos anos, mas ainda cometo gafes, me deixo muitas vezes levar pela situação e depois me arrependo. Esse exercício é diário.

Eu preciso contar que minha mãe era a segunda esposa do meu pai e eu tenho dois irmãos do primeiro casamento dele. 

Como de se esperar, eles também sofreram e precisaram aprender a trabalhar com a própria dor e com o próprio ódio de formas diferentes e, tiveram uma mãe excepcional para ajudar nessa batalha interna. 

Então, continuamos sortudos, por termos essas pessoas em nossas vidas. Talvez se não as tivéssemos, teríamos utilizado o nosso rancor, a nossa experiência violenta, para propagar outras coisas terríveis.

O motivo

Mas o que eu quero com esse texto tão pessoal? 

1- eu gostaria de atingir pessoas que também passaram por algo do tipo. Que talvez elas consigam notar como é fácil a gente pegar o caminho errado quando estamos muito abalados com algo tão horrendo.

2- eu gostaria de atingir gente que expressa ódio de graça seja de qualquer tipo: contra um gênero, uma classe, uma nacionalidade, um tom de pele, uma situação, etc. 

Estamos em 2015 e podemos nos esconder atrás do computador e destilar nosso ódio, fechar a tela e continuar a vida numa boa. 

Não temos consequências, não pensamos no poder das nossas palavras e basta uma passeada na internet para ver como é chocante o que passa pela cabeça das pessoas. 

Dá uma tristeza enorme ver que é tão fácil deixar se cegar. E isso não acontece só num país não. 

QUALQUER site de notícias em QUALQUER língua que eu leio é o mesmo padrão de violência verbal e tantas formas de incitar ódio.

Talvez a gente precisa assumir que temos ódio, nos permitirmos estarmos errados, nos arrependermos e simplesmente não deixar que ele controle nossos pensamentos, nossas palavras e consequentemente nossas vidas. 

E olha, eu sei que não é fácil, dá trabalho, mas é possível.

Beijo, outro, tchau.

2 comments on “Motivos para não odiar – desaBAHfoAdd yours →

  1. Ahhh, Bah… que história. Mas deixo meus aplausos para sua mãe, pela coragem que teve de manter a dignidade. Engraçado que sempre tive esse mesmo ‘olhar’ pela palavra ‘ódio’. Prefiro usar raiva, aborrecida ou muito aborrecida, ou mesmo o ‘nao gosto’. Que essa sua mensagem se espalhe e gere frutos , que toque o coração das pessoas mundo afora.
    Beijo

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