Colecionadores de tralhas

Eu fiquei ausente esses dias, mas  tenho grandes motivos. A culpa é toda dos livros, feriado e falta de criatividade.

Antes que entupisse meu blog com textos sobre a Páscoa ou lugares turísticos de Berlim fáceis de achar em qualquer livro resolvi que seria melhor gastar meu tempo com outras coisas…

Já dizia Abraham Lincoln “ É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida.”

Mas hoje estou com vontade de falar e mesmo que pareça uma idiota (risos), gostaria de partilhar com vocês esse incrível comportamento alemão de guardar tralhas.

Há algum tempo eu diria que isso é um reflexo do pós-guerra, mas depois de ver até mesmo criancinhas alemãs querendo me ensinar a maravilha que é descobrir coisas que você nem lembra que tem no seu porão, cheguei a conclusão que é muito mais do que isso.

É uma questão de cultura mesmo! Pode ter origem realmente na Segunda Guerra, mas é definitivamente um comportamento que veio para ficar.

Eu sempre tive um pé para a desorganização e a junção de tralhas: minha mãe, uma mulher prática, me dizia como é importante a limpeza no fim do ano.

Jogar tudo que não presta, doar o que não se usa mais e principalmente, a técnica de nem ao menos guardar o papel de sonho de valsa que você ganhou do namoradinho.

Um dia, cansada da minha zona e gavetas explodindo de “lembrancinhas” – ela me disse: eu vou chegar um dia de surpresa e pedir para você me dizer tudo que está guardado em suas gavetas e o que você não acertar vai pro lixo!

Eu me tornei uma pessoa mais organizada depois disso? De jeito nenhum! Mas minha memória ficou tinindo!

Aí me vejo aqui em Berlim e descubro um colecionador de tralha no mesmo porte – meu marido.

A situação era tão dramática no começo (desempacotando as minhas tralhas brasileiras para se juntarem às dele) que eu quase me senti engolida por cartas, ingressos, bilhete de transporte, papel de bala, de chocolate, chiclete e afins.

Incorporei o papel da minha mãe naquele momento e apliquei a mesma tática! Funcionou? Mais uma vez, não.

Fui massacrada numa conversa de família alemã me dizendo a importância de guardar uma cafeteira velha e que deixa o café com gosto de ferrugem ou aquele vaso horroroso que a tia deu e etc.

A sorte dos alemães é que 90% dos apartamentos possuem um porão e assim, você não precisa olhar todo dia para aquele bando de coisa que somente forças Jedis sabem se um dia vai voltar a ter utilidade.

Hoje me sinto mais completa do lado de cá do oceano porque, encontrei o meu povo! Aqui eu posso ser uma colecionadora de tralhas sem vergonha nenhuma!

E o melhor de tudo é que posso usar o discurso politicamente correto de como vivemos num mundo em que o valor das coisas se perdeu e o consumismo exacerbado tomou conta da vida das pessoas, mas não da minha!

Eu ajudo o meio ambiente, produzo menos CO2 por reutilizar coisas do passado ao invés de incentivar a produção de novos, olha só que legal que eu sou!

Confesso, eu levanto a mão aos céus por ter encontrado aquela batedeira da DDR no meu porão que funciona muito melhor que qualquer batedeira moderna, assim como o jogo de xícaras, o ferro de passar roupas e outras coisas que salvam a vida de uma aspirante a dona de casa.

Como dizer não ao estoque de tralha quando seu marido vem com um passaporte de 1935 embrulhado em plástico e diz que era do bisavô que participou da 1a Guerra Mundial e viu a 2a começar? Como dizer não quando ele aparece com os relógios do pai e do avô que ainda funcionam? É vintage né? (risos)

Realmente eu nunca digo não para lembranças, mas aquele vaso feio da tia caiu “sem querer”…

flohmarkt_tralhas_ahbahnao

6 comments on “Colecionadores de tralhasAdd yours →

  1. pelo menos um pouco de “tralha” tudo mundo já guardou… cada faxina no meu quarto é uma descoberta… e olha que já passei por 3 mudanças de casa… cartinhas dos tempos de escola até escaniei com medo do arrependimento de ter jogado fora… post style!

    1. hehehe eu sou style Furo!
      Realmente, não há quem se salve disso, mas aqui é uma loucura o tanto de tralha que o povo guarda! hehehe
      As vendedoras dos mercados de pulga piram! 😀

      Bjoooo e valeu por vir comentar aqui 😉

  2. O meu pai me chama. ” lixeiinha” e meu quarto é carinhosamente apelidado de “favelinha” nao preciso de mais explicações ne.?!!

  3. Olha, sou do time da sua mãe… ou quase…rs pq mesmo fazendo ‘limpas’ imensas em meus guardados, ainda tenho muita tralha sim, principalmente o que diz respeito a papelaria, que é meu fraco: fitas, blocos e papeis… canetas e prendedores… e por ai vai. Cada vez que me mudo é uma tonelada de lixo e ainda assim mantenho meu target de sempre fechar mais caixas…hehehe. Agora tirando as coisas de familia, como esse passaporte super hiper especial, se eu tiver que jogar, jogo sim. Roupas, sapatos e objetos que não fazem muito sentido para minha história. Mas tenho um histórico de mudanças radicais na vida, de deixar qualquer nômade ou cigano com inveja…hehehe, E isso acaba fazendo com que sejamos mais seletivos mesmo. =]
    Mas essa história é para mais de metros de papel… um dia te conto…rs

    1. Nossa Christine nem me fale da papelaria.
      Eu sou uma rata de papelarias! Se existe paraíso ele está numa loa de cadernos, papeis, canetas e afins! hihi
      Um dia eu vou aprender a praticar o desapego nas minhas tralhas, talvez eu precise de mais mudanças de casa como você hehehe

      E olha, to esperando a história, adoro ler coisas pra mais de metros de papel hihi

      Uma ótima semana para você, um beijo! 😀

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